Neuadd Bardd

April 29, 2006

O Corvo

Filed under: Conto

Saudações, para inaugurar o meu Hall dos Bardos, aqui é onde verão contos meus e de outros autores devidamente creditados, acredito q devemos sem dar os créditos aos autores, pois isso mostra um grande respeito aqueles q nos brindam com tão belas paginas.

Para o primeiro post quero por um conto/poema de um dos autores q gosto,e um dia espero conseguir escrever um poema ou conto, com a mesa dialética q este homem dispunha.

Quero apresentar o grande escritor de terror gótico, Edgar Alan Poe (1809-1849) e a sua obra novamente digo fantástica "The Raven" - O Corvo, numa tradução magnífica de nada mais , nada menos Fernando Pessoa.

Boa Leitura

O Corvo (The Raven)

Edgard Allan Poe (1809-1849)
(tradução de Fernando Pessoa)

      Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
     Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
     E já quase adormecia, ouvi o que parecia
     O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
     "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
          É só isto, e nada mais."

     Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
     E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
     Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
     P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
     Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
          Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
     Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
     Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
     "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
     Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
          É só isto, e nada mais".

     E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
     "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
     Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
     Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
     Que mal ouvi…" E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
          Noite, noite e nada mais.

     A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
     Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
     Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
     E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
     Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
          Isso só e nada mais.

     Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
     Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
     "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
     Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
     Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
          "É o vento, e nada mais."

     Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
     Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
     Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
     Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
     Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
          Foi, pousou, e nada mais.

     E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
     Com o solene decoro de seus ares rituais.
     "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
     Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
     Diz-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
          Disse o corvo, "Nunca mais".

     Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
     Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
     Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
     Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
     Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
          Com o nome "Nunca mais".

     Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
     Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
     Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
     Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
     Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
          Disse o corvo, "Nunca mais".

     A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
     "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
     Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
     Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
     E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
          Era este "Nunca mais".

     Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
     Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
     E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
     Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
     Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
          Com aquele "Nunca mais".

     Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
     À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
     Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
     No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
     Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
          Reclinar-se-á nunca mais!

     Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
     Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
     "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
     O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
     O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
          Disse o corvo, "Nunca mais".

     "Profeta", disse eu, "profeta – ou demônio ou ave preta!
     Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
     A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
     A esta casa de ânsia e medo, diz a esta alma a quem atrais
     Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
          Disse o corvo, "Nunca mais".

     "Profeta", disse eu, "profeta – ou demônio ou ave preta!
     Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
     Diz a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
     Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
     Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
          Disse o corvo, "Nunca mais".

     "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
     Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
     Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
     Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
     Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
          Disse o corvo, "Nunca mais".

     E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
     No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
     Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
     E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
          Libertar-se-á… nunca mais!

Para todos um grande dia
Abraços
Taliesin

3 Comments »

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  1. Oi Tali,
    Vc viu o ultimo tutorial sobre mudar as cores?
    Tem toda uma lenda a respeito dos corvos aqui no Reino Unido. Vc conhece os livro da Marion Zimmer? Estou lendo “A Sacerdotisa de Avalon”, ja li outros dois antes desse e o proximo sera: “As Brumas de Avalon”… Sempre que passo em seu site esses livro me vem a mente!
    BJS

    Comment by Ale — May 9, 2006 @ 9:39 am

  2. Igualmente lindo teu blog. Me perdi nas palavras, excelente!
    Parabéns! Mereces um prêmio literário!!! Saudações, Thaliesin!!

    Comment by Bela Guerreira — May 12, 2006 @ 8:00 pm

  3. oiiiiiiiiiiiii, adoro Edgard Allan Poe! muitissimo bem escolhido o texto de estreia, seu blog tá lindo! bjão

    Comment by Anne — August 31, 2006 @ 8:36 am

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